Contos da Cripta Brasil Lendas reais, crimes sombrios e mistérios sobrenaturais do Brasil profundo. Histórias que o tempo não enterrou — e que ainda assombram.
terça-feira, 22 de julho de 2025
A Luz da Curacanga No vilarejo de São Benedito das Almas, o povo costumava dizer: “Quando a cabeça voar, feche as portas, apague as velas e reze...” Era noite de sexta-feira. A lua, fina como uma navalha, mal iluminava os caminhos de terra vermelha. Júlia, moça de olhos vivos e sétima filha de uma família devota, nunca acreditou nos causos de sua avó. “Cabeça de fogo? Isso é história pra fazer criança dormir cedo”, dizia, rindo. Mas naquela noite, enquanto voltava da casa de sua comadre, uma luz avermelhada surgiu sobre o campo. Primeiro, pequena, como brasa de cigarro. Depois, se ergueu no ar... rodopiando como se buscasse alguém. Júlia parou. O coração bateu tão forte que parecia ecoar no silêncio da estrada. A luz se aproximava. Tinha forma. Uma cabeça de mulher, com olhos de fogo e cabelos chamejantes, flutuava rente ao chão, soltando um ruído sibilante, como o ranger de portas antigas. Júlia correu. Mas quanto mais corria, mais a luz a seguia. Ao tropeçar, lembrou do que a avó dissera: — "Se um dia vires a Curacanga, lança uma agulha virgem. Só assim ela te deixa em paz..." Tirou do vestido um alfinete novo, recém-pregado pela mãe, e atirou no chão. A cabeça parou. Seus olhos se apagaram por um instante. Depois, soltou um grito que rachou o silêncio da noite. E sumiu. Na manhã seguinte, encontraram Júlia desmaiada à beira do rio, com a pele fria como o orvalho. Nos dias que seguiram, andava calada. Só murmurava: — “Era ela... a cabeça de fogo... era real...” Desde então, toda sexta-feira, quando a noite cai, ninguém mais se atreve a andar pelos campos de São Benedito. Pois todos sabem: a Curacanga ainda voa. E agora, sabe o nome de quem não acreditava.
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