terça-feira, 22 de julho de 2025

Iara: A Voz das Profundezas Chovia havia dias na vila de Aruá. O rio subia, inchado, engolindo as margens e engolindo também o silêncio das noites. Pedro, pescador solitário, era teimoso como pedra no fundo do rio. Ignorava os conselhos da mãe, os sussurros dos anciãos, e principalmente... os sinais da água. Naquela noite, decidiu pescar mesmo com o céu negro e o vento frio cortando a pele. No meio do rio, o mundo parecia morto — só o barulho da água e das cordas da canoa rangendo. Foi então que ele ouviu. Um canto. Baixo, doce, impossível de resistir. Não era música humana. Era uma voz que parecia sair de dentro dele. Uma voz feminina... sedutora... maligna. — "Pedrooo..." Ele se virou e viu, na margem oposta, uma mulher sentada sobre uma pedra coberta de limo. A pele brilhava como escamas molhadas. Os olhos, verdes e imóveis, não piscavam. A boca sorria, mas não era um sorriso de alegria. Era um convite... ao fim. Hipnotizado, Pedro entrou na água. A corrente estava fria, mas ele não sentia. Só ouvia. O canto. O chamado. A morte. Submergiu. Nunca mais voltou. No dia seguinte, encontraram a canoa vazia, coberta por marcas de unhas longas e escamas escuras. Na proa, havia um tufo de cabelo negro, grudado no remo quebrado. A mãe de Pedro jura ouvir o filho à noite, pedindo ajuda com uma voz distorcida pela água. E os pescadores mais antigos alertam: “Se ouvir um canto vindo do rio... tampe os ouvidos, reme de costas e nunca, jamais, olhe para trás.” Pois a Iara não canta pra encantar. Ela canta pra afogar.

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