terça-feira, 22 de julho de 2025

O Boto Veste Branco Era noite de festa na beira do rio Solimões. O arraial estava cheio, luzes piscavam, sanfona tocava, e a brisa úmida vinha carregada de cheiro de terra molhada. Entre danças e risadas, um homem apareceu. Vestia terno branco, chapéu claro... e ninguém o conhecia. Mas ninguém ousou perguntar. Alto, elegante, olhos escuros e sorriso hipnotizante, ele dançava como se flutuasse. Quando estendeu a mão para Clara — moça nova, bonita e inocente — ela aceitou sem pensar. Dançaram a noite inteira. Depois sumiram. No dia seguinte, Clara foi encontrada desacordada, à beira do rio. Pálida, com os pés descalços e os olhos arregalados. Desde então, nunca mais foi a mesma. Dizia que ouvia sussurros à noite. Sussurros vindos da água. — "Volta pra mim..." — "O rio é teu lar agora..." Grávida e assombrada, definhava dia após dia. A barriga crescia... e a loucura também. Até que numa madrugada chuvosa, desapareceu. A única coisa encontrada foi seu vestido branco, preso num galho flutuando no rio. Desde então, em toda festa na vila, alguém garante ver o homem de branco, parado perto da água, chapéu cobrindo metade do rosto. E dizem que ele ainda procura novas dançarinas. Porque o Boto... não vem só pra seduzir. Ele vem pra levar. E o rio... nunca devolve o que toma.

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