quinta-feira, 24 de julho de 2025

Dama Ruiva do Baile de Santo Antônio de Posse 🌒-Uma lenda esquecida do século XIX Corria o ano de 1889. As noites no vilarejo de Santo Antônio de Posse SP , então pouco mais que um arraial cercado por cafezais, eram frias e silenciosas. Em certa noite de julho, sob garoa fina e cerração espessa, dois peões vindos da Fazenda dos Marianos cavalgavam lentamente rumo ao salão paroquial, onde haveria um baile em homenagem a São Joaquim. Eusébio, o mais novo, era conhecido pela língua solta e pelo gosto por bravatas. Ao passarem em frente ao velho portão do cemitério da vila, ele riu e gritou, voz ecoando entre os túmulos: "Esta noite eu danço com a moça mais bonita do baile! Nem que seja do outro mundo!" Seu companheiro, Anacleto, mais velho e supersticioso, se arrepiou. "Não brinca com essas coisa, Eusébio... Cemitério responde." Mas o outro apenas riu. Já no baile, entre lanternas de óleo tremeluzindo e moças de vestidos longos, Eusébio viu uma jovem ruiva, sozinha num canto. Sua pele era clara como porcelana, os olhos brilhavam em âmbar, e seu vestido carmesim parecia flutuar. O salão, de repente, pareceu girar em silêncio. "Me concede esta dança?", perguntou ele. "Sim. Mas só até a última valsa." Dançaram a noite toda. Eusébio estava enfeitiçado. No fim, vendo-a estremecer com o frio da madrugada, tirou seu sobretudo de lã preta e a envolveu com carinho. Ela agradeceu com um beijo na mão. "Leve-me até minha casa... e amanhã venha buscar o sobretudo. Eu te esperarei." Guiado por ela, seguiram até uma estradinha de terra, cercada de bambuzais, até uma pequena casa no alto de uma colina. Ela entrou silenciosa e fechou a porta. Na manhã seguinte, Eusébio voltou. Bateu. Quem atendeu foi uma velha de uns 70 anos, envolta em xale. "Pois não, moço?" "Vim buscar meu sobretudo. Deixei com a moça ruiva que mora aqui..." A velha empalideceu. Chamou-o para dentro. Mostrou a ele um retrato antigo em moldura escura sobre a lareira. A moça da foto era a mesma com quem dançara. "Essa... é minha filha. Seu nome era Beatriz D’Almeida. Morreu há vinte anos, morreu de Tuberculose. Desde então... alguns dizem que ela aparece. Mas só para quem a chama." "Está brincando comigo, senhora?" Ela negou com a cabeça. "Venha. Vou lhe mostrar..." Juntos, caminharam em silêncio até o cemitério. Lá, em um túmulo antigo com a inscrição "Beatriz D’Almeida 1869 † 1889", estava o sobretudo negro cuidadosamente dobrado sobre a lápide. Quando Eusébio tentou pegá-lo, um vento gelado soprou do chão, e uma risada aguda ecoou entre os túmulos. Naquela mesma noite, Eusébio desapareceu. Seu cavalo foi encontrado nos arredores do cemitério, encharcado de chuva. Apenas seu lenço de pescoço, com um fio de cabelo ruivo enroscado, repousava sobre o túmulo de Beatriz. Dizem que o coração de Beatriz jamais descansou, e todo homem que a invoca com palavras vãs diante do cemitério está condenado a dançar com ela... para sempre. 📜 "Lembre-se: se um dia passar pelo velho portão do cemitério de Santo Antônio de Posse - SP... não desafie os mortos. Alguns ainda escutam." 🕯️

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